Lei n.º 62/2007, art. 75.º n.º 4 b) - Constituem infracção disciplinar dos estudantes: A prática de actos de violência ou coacção física ou psicológica sobre outros estudantes, designadamente no quadro das «praxes académicas».

14
Nov 11

Com a devida vénia ao autor, por se tratar de uma opinião em jornal público, divulgamos:

 

A praxe e o sistema

Nos meus tempos académicos, a praxe era uma coisa algo tímida a renascer com alguma tensão da proscrição a que tinha sido votada nos calores dos anos 70. Recordo uma recepção ao caloiro com aulas forjadas e uns carimbos na testa e recordo os desfiles da Queima. Usar traje académico não seria directamente equivalente a ser betinho, mas quase. Não sei comparar se a alegria era mais genuína ou menos do que agora, mais regada ou não, mas de uma coisa tenho a certeza: das regras académicas, a grande maioria conhecia apenas a cor dos cursos e as insígnias do ano.

Uma geração depois, ao ouvir falar do "sistema" da praxe e das "tradições" académicas, fico siderado com tão pomposa e fútil complexidade. Deixando de lado os casos óbvios de abuso e de desrespeito básico, inquestionavelmente condenáveis, se a chamada recepção ao caloiro tem apenas o objectivo, são, de receber e integrar, não necessitaria de tão tortuosa "regulamentação".

Um caloiro, para ser integrado (e respeitado?), tem que aprender uma legislação complexa, por vezes a tocar o delirante, e respeitar/prestar vassalagem a uma organização sem mérito subjacente. Se eu fosse hoje caloiro, gostaria de dispensar essas obrigações e poder mandar directamente àquela parte os "doutores" que me coagissem a entrar em brincadeiras que não aprecio. Poderia fazê-lo sem riscos agravados?

Um sistema são é aquele em que a autoridade e a liderança são baseadas no mérito, não se podendo considerar meritório passar muitos anos sem concluir um curso, é um sistema de afirmação pessoal individual sem a sorte ou o azar dos padrinhos de circunstância e em que as regras e as leis têm um objectivo construtivo que as justifica e não são arbitrárias, gratuitas e inconsequentes.

O sistema da praxe e respectivo "poder" não são legítimos nem saudáveis numa sociedade em que os valores de base devem ser clareza, justiça, respeito, iniciativa e mérito. Em grande parte, são até mesmo o oposto do que a universidade deve incutir.

Carlos J. F. Sampaio, Esposende

Jornal PÚblico, 14.Nov.2011

publicado por contracorrente às 23:05

mais sobre mim
Visitantes

- Objectores -

FREEMUSE - Freedom for Musicians
“Quando fizermos uma reflexão sobre o nosso séc. XX, não nos parecerão muito graves os feitos dos malvados, mas sim o escandaloso silêncio das pessoas boas." Martin Luther King "O mal não deve ser imputado apenas àqueles que o praticam, mas também àqueles que poderiam tê-lo evitado e não o fizeram." Tucídedes, historiador grego (460 a.c. - 396 a.c.)
Na Pista de Outros
Free Global Counter
Google Analytics