Lei n.º 62/2007, art. 75.º n.º 4 b) - Constituem infracção disciplinar dos estudantes: A prática de actos de violência ou coacção física ou psicológica sobre outros estudantes, designadamente no quadro das «praxes académicas».

28
Jan 14

A universidade forma escravos e opressores
por PEDRO TADEU
A praxe estudantil é sempre violenta. Um homem ser humilhado é um ato de violência. Uma mulher ser humilhada é um ato de violência. Dirão alguns: "Violência? Como? Os praxados estão lá por quererem, por opção própria!" Duvido mas, se assim for, pior é.
Uma instituição capaz de criar um cerimonial de integração cuja resultante deliberada é a aceitação voluntária de castigos e penas, mesmo se aparentemente leves, mesmo se aparentememnte inócuos, é uma organização perversamente violenta.
Esse assassinato do indivíduo será aceitável numa estrutura militar ou policial - institutos de violência estatal onde as pessoas que os compõem têm de responder a exigências excecionais - mas é inaceitável em qualquer outra organização civilizada. É mesmo incompreensível no local onde se procuram criar futuros espíritos livres que, a partir do raciocínio independente sobre o conhecimento adquirido, sejam um dia capazes de ajudar a sociedade.
Os estudantes universitários serão a elite intelectual do País. Pois a primeira coisa que aprendem é a não pensar: obedecer, rastejar, não discutir ordens, não ter amor próprio, não ser gente. Quando, pela passagem do tempo, chegam ao estatuto de praxadores, ensinam-nos então a mandar outros a não pensar e a aceitar, com orgulho, o direito de colocar a pata em cima dos inferiores que rastejam à sua frente.
Este rito mitificado por uma falsa tradição histórica - tirando Coimbra, até aos anos 60, todo o atual mundo de praxes estudantis é uma criação parola iniciada nos anos 80 - é medieval. Este enredo periódico é um anacronismo. Este espírito académico é uma escola de formação de escravos inertes e de ditadores fascistas. Que raio de universidade é esta?

E que sociedade é esta capaz de proibir um pai de dar uma palmada no rabo a uma criança birrenta mas obrigando-o, um dia, a enviar alegremente o seu filho adolescente para uma máquina social de tortura psicológica e física? Que deputados são estes capazes de discutir legislação específica para acabar com o piropo mas, cheios de medo, recusam liminarmente produzir direito limitador das praxes mais violentas? Que autoridades são as nossas que trabalham há sete meses para meter na cadeia um homem que chamou nomes ao Presidente da República mas ficam indiferentes ao crime anual e calendarizado das praxes académicas?
Sei as respostas: afinal, os nossos políticos, as nossas autoridades, quase todos, também um dia aceitaram serem praxados, também um dia aprenderam, rindo alarvemente, a ser escravos ou a ser opressores.
http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=3654614&seccao=Pedro%20Tadeu&tag=Opini%E3o%20-%20Em%20Foco

publicado por contracorrente às 13:38

mais sobre mim
Visitantes

- Objectores -

FREEMUSE - Freedom for Musicians
“Quando fizermos uma reflexão sobre o nosso séc. XX, não nos parecerão muito graves os feitos dos malvados, mas sim o escandaloso silêncio das pessoas boas." Martin Luther King "O mal não deve ser imputado apenas àqueles que o praticam, mas também àqueles que poderiam tê-lo evitado e não o fizeram." Tucídedes, historiador grego (460 a.c. - 396 a.c.)
Na Pista de Outros
Free Global Counter
Google Analytics